>Vieira, Sandra. Criar coisas que não existem. Interview. in Arq./a
magazine #12 pg.80/83 Mar2002
Em 1989 começou a estudar Design de Equipamento. Qual foi a motivação?
Na altura, considerou ingressar no curso de Artes Plásticas?
Comecei a pintar e a desenhar desde muito cedo e continuei até por volta
de 90, momento em que comecei a interessar-me por fotografia.
Fiz o curso do Ar.Co.. e simultaneamente andei num curso de desenho na Monumental,
onde conheci o Manuel San Payo o Álvaro Rosendo
e as pessoas da Monumental. Na altura escolhi estudar Design de Equipamento
porque achei que ir para pintura seria desinteressante, eu
estava mais interessado em aprender a trabalhar com outros materiais. Mas na
ESBAL também cheguei a pintar, já que o primeiro ano é
comuns a todos os cursos.(foi aí que conheci o Pedro Cabral Santo, o
Alexandre Estrela, o Paulo Mendes , etc)
Ainda em relação
ao Design de Equipamento. Chegou a trabalhar nessa área?
Não... Quer dizer fiz dois interiores de lojas.
De resto, faço é muito trabalho de design gráfico, páginas
de internet, capas de livro...logotipos.
A ficção científica
ocupa um lugar importante na sua obra?
Acaba por ser um tema como outro qualquer. Podia ser outro,
é mais um pretexto. Ainda que não possa negar o meu fascínio
pelo futuro,
pois acho-o mais importante do que o passado. Há medida que se fala,
que se acrescenta uma frase está-se já no futuro. E hoje é
possível
que a ficção científica cumpra o papel que a religião
cumpria na arte antiga, representa o desconhecido ou o incompreensível.
Acho que o
futuro e o universo continuam a ser os mistérios mais importantes com
que nos deparamos.
Na segunda metade da década
de noventa passa a explorar a animação 3D. Como começou
a interessar-se?
Tenho um fascínio pelo 3D e pelo poder de criar
em computador coisas que não existem. Por exemplo, na fotografia tem-se
a realidade e só
depois é que se fotografa, e isso acaba por ser um pouco redundante.
De qualquer maneira eu acho que o 3D vai ser apenas uma fase no
meu trabalho, trabalhei antes com a fotografia, com madeiras, metal, iluminação,
sensores de presença, ventiladores e outras coisas, e
estou desde Setembro a trabalhar em som, vou editar um CD com cerca de 30 músicas
na minha próxima exposição individual que será
em Maio na Galeria Monumental em Lisboa. Acima de tudo, gosto muito de trabalhar
com as tecnologias que estão ao dispor das pessoas
comuns e lhes dão a oportunidade de fazer o que antes só se fazia
com equipamento especializado e com muito dinheiro. Interessa-me o
facto de hoje uma pessoa com um computador de 200 contos poder fazer música,
montar vídeos, fazer filmes em 3D, algo que quando
surgeiu só era possível em computadores do tamanho de um camião
que custavam milhares de contos por minuto em electricidade.
Ou seja, nos últimos dois ou três anos, ao fazer o meu trabalho
tenho explorado o que é que uma pessoa média pode fazer com um
computador médio.
Pode falar-me um pouco do
processo criativo?
O processo varia muito. Às vezes faço peças
sem ter uma ideia preconcebida (isto é, a sua forma final vai surgindo
à medida que o trabalho
se vai desenvolvendo), outras vezes, planeio pormenorizadamente e passo depois
para a execução. Em relação aos objectos que utilizo
nas
animações 3d , recorro quase sempre à internet, importando
ficheiros de CAD, em vectores para um programa que é o Bryce, que é
um
programa de 3d muito simples e especializado em atmosferas, água, montanhas,
paisagem em geral. Os modelo podem ser ser feitos por
míudos fanáticos ou mesmo por empresas que criam diferentes objectos,
por exemplo carros ou naves de filmes de ficção científica,
e os
colocam em páginas da internet.
Em relação
ao tema da apropriação, no texto da peça Copyright Law
(1994) chega a tomar uma posição e defender o acesso livre às
imagens?
Nunca tive esse problema, mas acho que isso pode constituir
um entrave para muita gente, não só quando se trata de fazer as
coisas mas na
altura de as mostrar. Existe sempre o medo. Porque numa das fotografias aparece
não sei o quê e temem que se saiba que não tem licença.
Mas eu não vejo qualquer problema nisto, já que ao fazê-lo
as pessoas não estão a impedir o autor de lucrar com isso, não
se está a tirar o
proveito que o autor teria. E considero que não deveria haver qualquer
restrição.
Já deixou de usar
certas imagens por achar que podiam ser identificadas?
Nem é tanto por aí, porque eu tento não
usar imagens demasido óbvias. Não me interessam tanto, interessam-me
mais as imagens que eu
sinto que descobri. Há casos e casos. Às vezes até acabo
por ficar com um peso na consciência. Mas agora pelo facto de fazer música
isso
vai-me resolver esse tipo de problemas. Antes costumava usar nos meus vídeos
músicas de outras pessoas, e ás tantas comecei a pensar
que caso as peças começassem a ter muita projecção
mediática, outras pessoas poderiam vir a confundir e julgar que aquilo
era o teledisco
daquela música. E os autores não ficarem satisfeitos. Nesse caso
a situação podia-se tornar injusta para com os autores. Agora
usar dez
segundos de uma música é muito diferente. E uma coisa é
usar excertos de objectos, e outra é apropriar-se de peças de
outros artistas.
Não há nenhum problema com o facto de Andy Warhol ter usado a
lata de Coca- Cola, agora caso tivesse usado a peça de outro artista
sem
ele ter conhecimento disso, penso que poderia ser mais complicado. Este é
um assunto interessante, porque se por um lado é quase impossível
fugir à apropriação, por outro lado é muito difícil
estabelecer os limites e as fronteiras. Nada está muito definido e é
ainda um tema muito actual.
E já aconteceu apropriarem-se
de trabalhos seus? Importou-se?
Já me aconteceu, na altura em que eu fazia desenhos
no DN Jovem, entre 1987 e 1990. Eu ganhei muitos prémios de desenho e
fotografia, e
havia pessoas que por acharem isso injusto enviavam para lá desenhos
a imitar-me ou então fotocopiavam os meus desenhos e pintavam por
cima. Mas aí era por mais por brincadeira e nem sequer deu para avaliar
bem a situação.
No seu entender o que é
que os computadores trouxeram à arte?
Se calhar os computadores acabam por não trazer
nada de novo mas acabam por ser um forma diferente de fazer as coisas. Digo
isto porque
no outro dia li um artigo em que se dizia que os computadores não tinham
contribuído para o aumento da produtividade nem beneficiado os
resultados ao nível das contas das empresas. E isso não deixa
de ser interessante. Toda a gente gasta dinheiro em computadores e equipamento
informático e parece que a maioria não está mais rica por
isso. Mas não me parece que seja assim tão simples. Ao dar ao
público em geral e aos
artistas a possibilidade de fazer música, vídeo, cinema, e desenhos,
e permitir que se possa voltar um passo atrás (undo), só isso
constitui por si
só uma grande evolução. E nesse sentido o 3D constitui
ainda uma evolução maior. Por outro lado, com a internet está
a criar-se uma espécie de
cérebro gigante à volta da terra. Agora para o mundo da arte acho
que as implicações são demasiado vastas, mas ainda muito
difíceis de avaliar.
Acho que não há distância suficiente para analisar. E apesar
de tudo a arte feita em computador é ainda desprezada pela maioria das
pessoas.
Ao que pensa dever-se esse desinteresse?
Por um lado por ser mais imaterial, as pessoas não
tocam e não sentem e ao mesmo tempo pode ser reproduzida infinitamente
(tudo "desvantagens"
para quem gosta de tocar e sentir uma obra de arte única). Por outro
lado, essa relutância pode estar relacionada com a desvalorização
deste tipo
de trabalho artístico, porque hoje, muitos jovens, de outras áreas
que não as artes plásticas, trabalham e divertem-se com estes
programas fazendo
musicas e filmes em casa! E estando os computadores cada vez mais acessíveis,
é possível que as pessoas achem que também o podem fazer
e
melhor. (isto é uma evolução muito positiva dos chamados
"pintores de domingo"). Vai ser engraçado ver isso no futuro.