>Galeria Zé dos Bois, a veterana
Fundada em 1994 por um conjunto de 15 pessoas de diversas áreas da cultura, a Galeria ZDB, ou a Associação Zé dos Bois, aparece na cena lisboeta como uma lufada de ar fresco. Depois do boom galeristico dos anos 80, e consequente encerramento de muitas das galerias que tinham apostado em artistas mais jovens, esta associação sem fins lucrativos vem inaugurar um género de local de divulgação artística de novos valores funcionando como alternativa a locais institucionais e inacessiveis.
A ZDB surge assim com uma proposta diferente e necessária na cidade de Lisboa e levou a que se instaurasse uma maneira diferente de reagir a situações de impasse: os artistas recém-licenciados começam a promover as suas próprias exposições em locais pouco comuns, começam a ser eles próprios os promotores do seu próprio trabalho.
A ZDB arranca ao mesmo tempo que uma nova geração surge e que colabora com a galeria, incluindo artistas como Paulo Mendes, Pedro Cabral Santo, Tiago Batista, Alexandre Estrela, Miguel Soares ou Rui Toscano que surgem depois dos artistas dos anos oitenta que se revelaram os consagrados dos anos noventa, como Cabrita Reis ou Julião Sarmento
Exposições colectivas determinantes fazem já parte da história da ZDB, como X-Rated (no antigo prédio dos moveis Olaio, hoje loja da estilista Fátima Lopes) e O Império Contra Ataca. Estas e outras reúnem, no final dos anos noventa, artistas que hoje trabalham com frequência em locais mais institucionais, uns mais do que outros, claro. Significativa é também a mais recente exposição Sonoro e os variados projectos de exposição de autores muito jovens, acabados de sair da Faculdade de Belas Artes After Eight ou T-9 que funcionaram como uma alternativa às celebres exposições de finalistas.
Interventivo e colectivo são noções muito fortes na estructura criada quase sempre à beira de um precipício - como qualquer associação juvenil a quem são dados escassos subsídios - mas que tem um papel determinante na vida cultural portuguesa, com tudo o que acarreta a noção de espaço aberto a propostas, sem um comissariado definido, sem uma estrutura hierárquica firmemente delineada. Isto quer dizer que, inevitavelmente, muito boas, boas, más e muito más criações passaram por baixo do tecto da galeria ZDB, mas estranhamente a cidade de Lisboa não conhece outro projecto nestes moldes. E ainda hoje, passados quase oito anos, a esta galeria continua a ser fulcral na evolução de novos talentos.
Um dos eventos mais mediáticos organizados pela ZDB é com certeza o Festival Atlântico (bianual desde 1995), que trouxe a Portugal artistas e performers internacionais como Stelarc, Orlan, Philipe Meste, Aziz + Cucher, Daniel Buetti, Mariko Mori, Wan Du, Kenji Yanobi ou Yves Amu Klein, colocando-os lado a lado com artistas nacionais como Paulo Mendes, Pedro Cabral Santo ou Alexandre Estrela.
Ao mesmo tempo, e desde 1995, a galeria tem vindo a descobrir espaços pouco utilizados para exposições, dinamizando-os e, por consequência, dinamizando também zonas da cidade de Lisboa Lojas desactivadas do Chiado, o edifício Capital (hoje ocupado pelos Artistas Unidos) e a Antiga Litografia de Portugal, ambos no Bairro Alto.
A galeria ZDB tem igualmente desempenhado um papel importante na divulgação da música improvisada e experimental, através da iniciativa zdbmüzique. Para além de tudo isto, a ZDB tem outras actividades, nomeadamente a edição da revista de arte e cultura Flirt (grátis e bilingue), a programação de teatro/performance e dança, as sessões de cinema em formato Super 8 (Supa 8) e também os projectos de autoria colectiva do próprio núcleo duro ZDB, sempre preocupados em divulgar o maior número possivel de autores portugueses, exemplo disso a recente presença na mostra do Southern Exposure (galeria alternativa há 25 anos ) em São Francisco (www.gotofrisco.net) que reuniu mais de 37 artistas.
Texto: Susana Pomba
2001-04-17